quinta-feira, 28 de fevereiro de 2013

Não deixe para ser feliz em 2014


Josué de Souza

Já estamos em fevereiro de 2013. Sim, já passou janeiro e sobrevivemos 2012. O mundo não acabou. Também sobrevivemos a euforia de dezembro e a epidemia das compras de natal. Alguns ganharam presente de natal, outros não. Alguns tiveram a presença de amigos e familiares, outros não tiveram esta sorte. Alguns, mais sortudos ficaram presos nos engarrafamentos financiados em 60 vezes nas férias.  Outros ficaram em Blumenau suportando o calor, mas em troca, tiveram uma cidade sem filas. E o fim de férias para quem teve chegou.
            Passado o mês de janeiro, chegou a hora de voltarmos a nossa rotina cotidiana. Há quem diga que em Blumenau o ano começa em fevereiro.  Assim, creio que este é o período de falarmos de projetos para o ano. Calma, não pretendo escrever um daqueles textos de autoajuda, que prega que você tem que ter metas, objetivos, disciplina, etc. Respeito quem defende, mas não creio que isto garanta uma vida feliz. Pelo contrário, em alguns casos, aumenta o sentimento de frustração e incompetência das pessoas.
            Não que as pessoas não devam planejar, que não tenham que ter grandes metas ou objetivos de vida. Pelo contrário, eu tenho algumas, outras já conquistei e alguns persigo há mais de uma década. Creio apenas que não deve-se ficar reféns delas. Não são os grandes objetivos que traz felicidade há vida, e sim, os pequenos momentos. Aqueles corriqueiros, quase fúteis, e que não é mediado por dinheiro ou qualquer outra forma de compensação financeira, mas acompanhado, sobretudo, pelo convívio e pelo afeto.        Lembro que um dos maiores presentes que já ganhei foi ver o sol. Um dia, que estava impedido de caminhar, um amigo generoso me levou para ver o sol. Algo corriqueiro, mas que naquele momento, para mim, teve um valor incalculável.
Assim, não se iluda este ano. Será igual ao ano passado. Alguns dos seus projetos não irão se realizar. Outros com um pouco de disciplina você conseguirá. Acontecerão acidentes, eventos inesperados, coisas que sairão do seu controle e planejamento. Mas não se esqueça de viver no dia-a-dia os detalhes dos pequenos momentos. Não deixe para ser feliz em 2014.

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2013

A situação da indústria e o mercado interno no Brasil


                                                                                                                                    


                         *Mairon Edegar Brandes
                                *José Álvaro de Lima Cardoso


Os indicadores de produção e emprego industriais fecharam 2012 com resultados muito ruins. Conforme mostram os dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a produção industrial regional manteve um comportamento oscilante ao longo de todo o ano, crescendo em um determinado mês e recuando no mês seguinte. Ao longo do ano, a produção industrial não conseguiu “engatar” um ritmo de crescimento, seja em termos setoriais, seja em termos regionais (ver Carta IEDI nº 554: Indústria de novembro de 2012: Produção Sem Ritmo e Emprego em Queda). Esse comportamento oscilante decorre do fato de que, ao mesmo tempo em que a indústria já recebe os efeitos dos fatores de estímulo à recuperação (redução dos juros, desvalorização cambial, etc.), ela sofre determinações mais profundas, de caráter estrutural, que levou ao segundo ano seguido de declínio da produção industrial.
Conforme diagnosticou o IEDI, no documento supra citado, os principais fatores contrários a um desempenho favorável da indústria nos últimos anos seriam: “(i) término do ciclo de duráveis; (ii) colapso dos investimentos da economia brasileira; (iii) falta de competitividade da indústria nacional, com reflexos internos (maior concorrência do produto importado no mercado interno consumidor) e externos (queda das exportações de produtos industrializados); e (iv) aumento dos custos sistêmicos e do custo do trabalho, dado um pequeno avanço da produtividade” (p.2). Em 2012, até novembro, a produção industrial recuou 2,6%, resultado da queda do nível de produção em nove das catorze localidades pesquisadas pelo IBGE. Cinco locais recuaram acima da média nacional (–2,6%): Amazonas (–7,1%), Espírito Santo (–6,0%), Rio de Janeiro (–5,6%), São Paulo (–4,1%) e Rio Grande do Sul (–3,9%). Dado o peso que esses estados têm na produção nacional fica claro que o problema da indústria é muito sério.
Em Santa Catarina, apesar da indústria em geral também atravessar dificuldades, o comportamento em setores estratégicos da indústria de transformação (Têxtil; Borracha e plásticos; Artigos do Vestuário; Papel, celulose e produtos de papel; Produtos químicos.) apresentam comportamento diferente no período janeiro/novembro: 
 1) houve expansão da produção e da produtividade da indústria catarinense no decorrer do ano de 2012, já que as taxas de crescimento do número de pessoal ocupado não acompanham as taxas de expansão da produção;
2) ocorreu crescimento também do faturamento real (resultado de vendas) das empresas no ano. Apesar de haver crescimento, com exceção da indústria de vestuário e têxtil, na massa salarial real, a expansão desse indicador ficou aquém ao observado no faturamento. Ou seja, o trabalhador produziu mais e recebeu menos em Santa Catarina. Todas as indústrias analisadas neste breve artigo registraram aumento na produção e no faturamento (vendas) com crescimento em menor proporção no número de pessoal ocupado e na massa salarial real.
Como não existe nação desenvolvida sem indústria, as dificuldades mencionadas têm que ser enfrentadas com vigor e inteligência. É fundamental evitar fortes movimentos do câmbio, especialmente na direção da valorização do real. As taxas de juros têm que continuar baixando (sem descuidar da inflação) e confluir definitivamente para parâmetros internacionais. O Brasil também tem que estabelecer barreiras aos capitais não desejados. Além disso, o país tem que desenvolver um conjunto de políticas voltadas para o objetivo de expansão do mercado interno, que é o maior ativo que a economia de um país pode possuir. Por isso é fundamental acelerar o processo de inclusão e de distribuição de renda.

*Economistas e técnicos do DIEESE da equipe de Santa Catarina

terça-feira, 22 de janeiro de 2013

A espera do jantar


Josué de Souza

Mais uma vez reuniram-se na mesma sala para o espetáculo. Cantaram, fizeram orações, mecanicamente citaram versos. Meticulosamente seguiram a tradição. Apesar das duas mortes, assombrosamente, tudo continuava conforme a tradição. Reuniram-se todos como se nada tivesse acontecido. Ninguém sentia falta deles, estavam todos entretidos com o rito da reunião.
No inicio as reunião acontecia com o objetivo de preparar-se para o grande jantar. Para o esperado evento estocavam comida e confabulavam sobre as receitas e o cardápio. Escreviam livros e teses sobre o assunto. Depois começaram a debater a disposição dos lugares na mesa. Os lugares mais próximos ao noivo eram os mais desejados. Criou-se até um pequeno comercio em torno desses lugares. Algo que lembrava uma bolsa de valores. Quem dava o maior lance, levava. Aos poucos, sem que ninguém percebesse, reunião cresceu, virou espetáculo.

  As Mortes

O primeiro cadáver foi vitimado pela fome. Na espera da grande refeição, foi definhando. No início, faminto pedia alimento. Tentava chamar atenção, buscava sensibilizar os outros. Contava sua história, apelava para religiosidade do grupo. Depois, cansado com a indiferença dos outros ou já sem forças, apenas levantava a mão enquanto lamuriava pedindo comida.  
O segundo também morreu por conta da fome, mas não a sua. Incomodado pela lamúria do faminto decidiu sair da inércia. Abriu o celeiro e concedeu um pedaço de pão ao faminto. Pego em flagrante, foi preso, não antes de assistir o moribundo dar o último suspiro. Julgado, foi condenado a ter o mesmo destino.

O Julgamento

Foram julgados rapidamente, no afogadilho. Na justificativa, além da expressão de contemplação dos seus algozes, havia uma explicação para a pressa no veredito.
- Não temos que nos preocupar com outras coisas que não seja trabalhar, e guardar as economias para o grande evento. Além de cotidianamente e nos dedicarmos a realização dos espetáculos. Até porque, na grande banquete todos os problemas serão resolvidos.
Ao lerem a sentença, os defensores da estocagem fizeram questão de adjetivar os finados:
            Para o primeiro:
            - Indolente! Preguiçoso!
O segundo:
- Herege! Má Influencia! Perigoso!

segunda-feira, 3 de dezembro de 2012

MANIFESTO Comitê Pró-Federalização da FURB



     A Coordenação Colegiada do Comitê Pró-Federalização da FURB manifesta surpresa frente à posição da Reitoria da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) quanto à expansão da Educação Superior na região do Vale do Itajaí, excluindo a Universidade Regional de Blumenau (FURB). O estranhamento decorre do fato que a Reitoria da UFSC assumira compromissos com o Comitê, de pautar sua decisão a partir da constituição de Grupo de Trabalho para estudar o modelo de colaboração entre as duas universidades, bem como de realizar uma Audiência Pública em Blumenau para ouvir a comunidade regional.
Lamentavelmente, a Reitoria da UFSC anunciou sua posição unilateralmente, sem ouvir a comunidade regional e sem aprofundar o debate da proposta. Resulta fundamental, nesta hora, que o Ministério da Educação, responsável pelo processo, pronuncie-se para clarificar sua posição, se respalda ou não tal atitude.
Diante desta infeliz decisão, o Comitê reitera a continuidade da luta pela universidade federal da região, nascida grande, a partir da generosa oferta do município de Blumenau e da nossa comunidade: a FURB. Temos plena convicção de que, uma vez encontrada a necessária vontade política, esta reivindicação será atendida.
Finalizamos com a convocação da Reunião Plenária do Comitê, marcada para a próxima sexta-feira (dia 07/12/2012), às 16:00 horas, no Auditório do Bloco J – Campus I, oportunidade em que analisaremos a situação ora criada e definiremos os rumos do movimento.

Comitê Pró-Federalização da FURB
Blumenau (SC), 03 de dezembro de 2012.

Comitê Pró-Federalização da FURB
Fundação Universidade Regional de Blumenau
Rua Antônio da Veiga, 140. Campus I, Sala C-200.
89012-900 Blumenau SC
Fone: (47) 3321-0940
Correio-e: furbfederal@furb.br

quarta-feira, 14 de novembro de 2012

Na política da infância é assim: Blumenau rumo à década de setenta





Josué de Souza


Blumenau está vivendo mais um capítulo do retrocesso na sua política da infância. De cidade pioneira e modelo internacional na implantação de uma lei municipal de acordo com as diretrizes do Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) de 1990, Blumenau hoje é no máximo uma caricatura mal feita da Doutrina de Situação Irregular (MATTEDI, 1998, SAUT, 2005).
No dia primeiro de novembro uma conselheira representante do Conselho Tutelar fez uso do espaço “Tribuna Livre” na Câmara de Vereadores para denunciar as dificuldades de estruturas do Órgão. Conforme a representante, os conselheiros estão levando o trabalho para casa para diminuir o problema. “Mudamos de sede em setembro deste ano. Com isso, mudaram o nosso número de telefone, mas quando as pessoas ligam para o número antigo, não há uma mensagem dizendo qual é o novo número. Além disso, telefone e internet não estão funcionando adequadamente”. Em conversa que tive com uma das conselheiras, ela afirmou que o órgão está sem internet, sem sistema. Ou seja, as Conselheiras Tutelares de Blumenau, que é um polo de informática, estão sendo obrigadas a fazerem o registro e os encaminhamentos de forma manuscrita.
O que é preciso perceber é que o capítulo atual no município, não é um fato isolado, nem mesmo fruto de uma dificuldade técnica pontual, mas apenas, mais um capítulo do descaso com os órgãos de controle social da política da infância. A política da infância em Blumenau vem sendo diariamente destruída e nem de longe lembra os princípios defendidos no Estatuto da Criança e do Adolescente.
 O que assistimos na verdade é um retorno ao velho autoritarismo da Doutrina de Situação Irregular (legislação vigente durante a ditadura militar). Os elementos que temos para isso é a forma que tem sido utilizada para escolha dos Conselheiros Tutelares. Uma atual opção por critérios técnicos em detrimento de critérios políticos, além do uso da Comissão de Ética como  mecanismo de ameaça e subordinação do Conselho Tutelar.
Diferente do que está posto pelo censo comum, o Conselho Tutelar, não é um órgão técnico, mas político.  Ele é a presença da sociedade civil no sistema de garantias, que pela lógica da Doutrina da Proteção Integral recebe da sociedade (crianças, adolescentes, famílias, comunidades) notícias de violação dos direitos e a partir do colegiado delibera pelo melhor encaminhamento possível, responsabilizando e comprometendo aos que devem responder pelo ressarcimento do direito ameaçado (Saut, 2008). Na grande maioria das vezes é o Estado.
Neste sentido, quando o gestor público, nega-se a dar estrutura básica ao Conselho Tutelar, impede e rompe a possibilidade de comunicação entre a sociedade e seus representantes no sistema de garantia. Impedindo assim que o Estado seja responsabilizado por sua ação ou omissão. Assim, o Conselho Tutelar deixa de cumprir suas funções de fiscalização, controle e assessoramento do Estado e passa a ser apenas uma porta de entrada para a população na rede de atendimento. Desta forma, o Conselho Tutelar minimiza suas atribuições na relação com o Estado e se fortalece como uma espécie de Polícia das famílias. 
O resultado deste processo a função do Conselheiro Tutelar transformou-se em sinônimo de burocrata, esvaziado de sua função política e reduzido a ser um despachante de ofícios, que na atual conjuntura (sem computador) retorna ao início da década de 70. Uma caricatura do extinto Juizado de Menor.

domingo, 4 de novembro de 2012

E as enchentes?




Josué de Souza



No mês de setembro completou um ano desde a última catástrofe socioambiental em nossa região. Motivado pelo estrondoso silêncio na imprensa local, das autoridades e da população em geral, que parece que esqueceram o assunto, resolvi escrever sobre o tema.
O fenômeno socioambiental das catástrofes em nossa região é tratado pela imprensa e pela elite política local, como um evento natural, fruto da vontade divina ou das forças da natureza, que atinge a todos, independente de classe social. Porém, o fato é que especificamente a cidade de Blumenau convive com o fenômeno das catástrofes há pelo menos 159 anos, já que o primeiro registro data de novembro de 1852. Sua incidência se dá como consequência do processo de ocupação do solo na região do Vale do Itajaí que produziu a intensificação e o agravamento de suas consequências.
Isso se dá, pelo fato de que a instalação da cidade deu-se em torno do Rio Itajaí Açu e dos seus afluentes, sobretudo, na região sul da cidade onde os declives geográficos, facilitava a produção de energia elétrica que propulsionou a expansão da indústria têxtil na região.
Em busca dos empregos nas indústrias, os trabalhadores, portanto, os mais pobres, ocuparam as áreas de encostas de morros que aos poucos foram tornando-se espaços de pobrezas. Aliado a própria lógica capitalista de segregação espacial, a ocupação de áreas geográficas e a crescente utilização de recursos naturais, reduziram a cobertura vegetal na cidade, promovendo a aceleração do escoamento da água e sua consequente destruição.
As somas destas características produziu um quadro de vulnerabilidade socioambiental que deixa a população mais empobrecida exposta aos impactos destas catástrofes. Esta segregação fica clara se analisarmos os dados do Censo de 2010. Aponta que apesar da região viver um crescimento na área da construção civil e o número de pessoas residindo em apartamentos crescer 126,6%, o número de pessoas residindo em cortiços ou quitinetes, cresceu 92% entre 2000 e 2010. Ou seja, se cresceu neste período o número de moradores de apartamentos, cresce também o número de moradias precárias, dando provas que o território blumenauense é construído de forma desigual. Uma bomba socioambiental que irá explodir na próxima temporada de chuva em excesso.
A grande questão é que fora do período de chuvas o tema é esquecido pela população e pelas autoridades em geral. Vivemos como se o problema não existisse e passamos a encubar a próxima catástrofe. Não pretendo afirmar aqui, que o problema socioambiental não atinge os mais ricos, mas que em Blumenau, ele atinge de forma mais violenta, os mais pobres e os migrantes. Se Deus ou a natureza manda a chuva, nós escolhemos quem irá ser atingido ou não pelas cheias.