sábado, 31 de dezembro de 2011

É hora de reavaliar*

Josué de Souza 

            Todo ano é sempre a mesma história, com a proximidade do natal e do final do ano. Somos bombardeados de mensagens de motivações a fim de avaliarmos e reavaliarmos nossas posturas, metas e objetivos para o próximo ano. Isto é bom, até porque, acredito que guardada as devidas proporções, planejar, reavaliar e criar novas metas faz parte da vida.
            Creio que na Bíblia há inúmeros exemplos de organização e planejamento. Um deles é  Noé que é chamado por Deus para construir a arca.  O próprio Deus lhe entrega o planejamento de como deveria ser construído a arca e quais animais que iriam habitar nela (Gn. 6:11). José para salvar os egípcios da fome, planeja e cria celeiros, organizando estoques de alimentos ao redor das cidades.
            O próprio Cristo, quando em Marcos 6:7 e Lucas 9:10 após enviar seus discípulos para a primeira experiência de evangelização destes, sem a presença do mestre, reagrupa seus discípulos para compartilharem suas experiências.
                        Sendo assim, independente da data do ano, planejar e reavaliar nossos objetivos faz parte da nossa existência.
            Quando penso nisto e chegando esta faze do ano, lembro de uma Música  que chama “A Lista” de Osvaldo Montenegro



*O texto acima foi públicado originalmente no Jornal daAssembleia de Deus em Dez. 2011. Disponivel em: http://www.ieadblu.com/materias/e-hora-de-reavaliar

segunda-feira, 12 de dezembro de 2011

Jesus e o Natal descrito nos evangelhos




“Porque nasceu para nós um menino, um filho nos foi dado e seu nome é Maravilhoso, Conselheiro, Deus Forte, Pai da Eternidade e Príncipe da Paz”




Edison Lucas Fabrício  
Ms. História - UFSC


         É realmente formidável como os evangelistas apresentam o nascimento de Jesus, como cada um tem uma maneira peculiar de apresentar esse acontecimento, a riqueza descritiva dos detalhes. Especialmente Mateus, Lucas e João. Mateus, escrevendo para um público judeu, mostra Jesus como o Messias esperado, o Emanuel, Deus conosco, ou seja, inserido na própria experiência humana. Com sua genealogia, Mateus ensina que Ele não é apenas filho da história dos homens, Ele é filho do próprio Deus, é o limiar de um novo tempo cheio de esperança e com Ele se inicia uma nova história. A história da liberdade, da justiça e porque não a civilização do amor, com Jesus se inicia a concretização da promessa Daquele que viria salvar seu povo de seus pecados. 
         O lugar realmente estava mergulhado no pecado, na opressão, na corrupção política e religiosa. O povo vivia sob o imperialismo romano que o oprimia com pesados impostos somando-se a isso o consenso da classe sacerdotal que em troca do status quo legitimava a atuação da falsa pax romana. Se revolvermos esse terreno veremos que o povo vivia na expectativa da vinda Daquele que foi prometido através de Isaias: o Príncipe da Paz. O príncipe da linhagem de Davi que governaria com justiça e proclamaria a liberdade. Para os poderosos (Herodes) esse menino é perigoso, é uma ameaça a ordem estabelecida, é um corpo estranho nessa estrutura pecaminosa. Por isso, é preciso matar, eliminar, extirpar para que os poderosos possam atuar em segurança.
         A terra prometida se tornou terra de opressão. Surge um novo Moisés que vem do Egito, o processo de libertação está iniciado com um novo êxodo, não apenas geográfico, mas de atitude. A libertação não é política como esperavam os compatriotas, têm implicações políticas, mas reduzir Jesus a um revolucionário político seria no mínimo uma pobreza de reflexão. Mateus o apresenta como Mestre da justiça de Deus, uma justiça que excede a dos escribas e fariseus. A palavra mestre nos sugere ainda sinônimos como educador, pedagogo. A práxis educativa acontece na dialética do discurso e da ação, Mateus didaticamente organizou seu evangelho sempre com um discurso seguido de uma pratica de Jesus, com Ele se inaugura a pedagogia da justiça. O menino frágil envolto em faixas que repousa numa manjedoura, que desde seu nascimento foi adorado por estrangeiros, nasceu com o propósito de entronizar o Reino de Deus no coração dos homens e da historia.
Lucas, por sua vez, se enquadra mais no oficio do historiador meticuloso, que procura averiguar sob uma ótica minuciosa as informações coletadas na pesquisa. No entanto, essa história não é maçante, ela é carregada de poesia, literalmente: os cânticos de Maria e de Zacarias são mostras dessa poesia. Nesse sentido, Lucas começa a pintar um quadro com as cores vivas do nascimento daquele que precede o nascimento de Jesus, João Batista, o parente que prepararia o caminho para o menino que, nas palavras de Lucas, não encontrou lugar em casa alguma para nascer. Se olharmos novamente para Mateus ele nos dirá que era impossível encontrar um lugar para Cristo naquela sociedade, logo vemos que Ele nasceu para morrer. Porém, Lucas com cores singelas continua a pintar o quadro, a paisagem retratada é de um menino numa rústica manjedoura, com pastores ao seu redor e cores resplandecentes de um coral angelical. Mas esse quadro é pobre, é o quadro do menino pobre, rodeado por pessoas pobres e marginalizadas, aqui representadas pelos pastores, que eram desprezadas e estigmatizadas por não terem condições de cumprirem as exigências da lei. Como primogênito o menino pertencia a Deus, era preciso um cordeiro para resgatá-lo, ou para os pobres um par de rolinhas. Pobre com dignidade, que nas palavras de Simeão seria a “causa da queda e da elevação de muitos em Israel, Ele será um sinal de contradição”. Esse menino é a alegria dos idosos (Simeão e Ana). Para Lucas Jesus é o Filho do Homem, por todo seu quadro pintará Jesus como o Deus-homem que carrega as dores dos homens e revela a fragilidade da condição humana.
João tem uma maneira de refletir bem diferente sobre o acontecimento, seu evangelho é mais uma meditação que uma narrativa de fatos ligados ao ministério de Jesus. João, por necessidades especificas, começa anunciando um Jesus que é Verbo, Palavra que se fez carne em Jesus: “e o verbo se fez homem e habitou entre nós”. Deus se inseriu na própria experiência humana, armou sua tenda na própria história da humanidade, ou seja, fez sua casa, sua morada entre os homens. Para descobrirmos o verdadeiro valor da pessoa humana o próprio Deus se fez homem. João continua: “Ele é a vida que é a luz dos homens. Essa luz brilha nas trevas e as trevas não conseguiram apagar-la”. A maneira como João revela Jesus é fantástica. Num primeiro momento Ele é o “Eu Sou”, e nos momentos seguintes: a luz do mundo, luz que ilumina o caminho, eu sou o próprio caminho. Luz e caminho orientam e prossegue: Eu sou a porta das ovelhas e Eu sou o bom pastor que cuida das suas ovelhas. Eu sou a verdade e a Vida, verdade que após seu conhecimento conduz a libertação em plenitude, liberdade de tudo o que oprime e impede os homens de serem felizes.

Se conseguirmos realizar esse itinerário evangélico podemos afirmar que:

Natal é o crepúsculo da velha ordem baseada na injustiça e o limiar de um novo tempo cheio de esperanças de libertação;
Natal é o menino que nasceu para entronizar o Reino de Deus no coração dos homens;
Natal é Deus fazendo sua casa na história dos homens.