segunda-feira, 3 de dezembro de 2012

MANIFESTO Comitê Pró-Federalização da FURB



     A Coordenação Colegiada do Comitê Pró-Federalização da FURB manifesta surpresa frente à posição da Reitoria da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) quanto à expansão da Educação Superior na região do Vale do Itajaí, excluindo a Universidade Regional de Blumenau (FURB). O estranhamento decorre do fato que a Reitoria da UFSC assumira compromissos com o Comitê, de pautar sua decisão a partir da constituição de Grupo de Trabalho para estudar o modelo de colaboração entre as duas universidades, bem como de realizar uma Audiência Pública em Blumenau para ouvir a comunidade regional.
Lamentavelmente, a Reitoria da UFSC anunciou sua posição unilateralmente, sem ouvir a comunidade regional e sem aprofundar o debate da proposta. Resulta fundamental, nesta hora, que o Ministério da Educação, responsável pelo processo, pronuncie-se para clarificar sua posição, se respalda ou não tal atitude.
Diante desta infeliz decisão, o Comitê reitera a continuidade da luta pela universidade federal da região, nascida grande, a partir da generosa oferta do município de Blumenau e da nossa comunidade: a FURB. Temos plena convicção de que, uma vez encontrada a necessária vontade política, esta reivindicação será atendida.
Finalizamos com a convocação da Reunião Plenária do Comitê, marcada para a próxima sexta-feira (dia 07/12/2012), às 16:00 horas, no Auditório do Bloco J – Campus I, oportunidade em que analisaremos a situação ora criada e definiremos os rumos do movimento.

Comitê Pró-Federalização da FURB
Blumenau (SC), 03 de dezembro de 2012.

Comitê Pró-Federalização da FURB
Fundação Universidade Regional de Blumenau
Rua Antônio da Veiga, 140. Campus I, Sala C-200.
89012-900 Blumenau SC
Fone: (47) 3321-0940
Correio-e: furbfederal@furb.br

quarta-feira, 14 de novembro de 2012

Na política da infância é assim: Blumenau rumo à década de setenta





Josué de Souza


Blumenau está vivendo mais um capítulo do retrocesso na sua política da infância. De cidade pioneira e modelo internacional na implantação de uma lei municipal de acordo com as diretrizes do Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) de 1990, Blumenau hoje é no máximo uma caricatura mal feita da Doutrina de Situação Irregular (MATTEDI, 1998, SAUT, 2005).
No dia primeiro de novembro uma conselheira representante do Conselho Tutelar fez uso do espaço “Tribuna Livre” na Câmara de Vereadores para denunciar as dificuldades de estruturas do Órgão. Conforme a representante, os conselheiros estão levando o trabalho para casa para diminuir o problema. “Mudamos de sede em setembro deste ano. Com isso, mudaram o nosso número de telefone, mas quando as pessoas ligam para o número antigo, não há uma mensagem dizendo qual é o novo número. Além disso, telefone e internet não estão funcionando adequadamente”. Em conversa que tive com uma das conselheiras, ela afirmou que o órgão está sem internet, sem sistema. Ou seja, as Conselheiras Tutelares de Blumenau, que é um polo de informática, estão sendo obrigadas a fazerem o registro e os encaminhamentos de forma manuscrita.
O que é preciso perceber é que o capítulo atual no município, não é um fato isolado, nem mesmo fruto de uma dificuldade técnica pontual, mas apenas, mais um capítulo do descaso com os órgãos de controle social da política da infância. A política da infância em Blumenau vem sendo diariamente destruída e nem de longe lembra os princípios defendidos no Estatuto da Criança e do Adolescente.
 O que assistimos na verdade é um retorno ao velho autoritarismo da Doutrina de Situação Irregular (legislação vigente durante a ditadura militar). Os elementos que temos para isso é a forma que tem sido utilizada para escolha dos Conselheiros Tutelares. Uma atual opção por critérios técnicos em detrimento de critérios políticos, além do uso da Comissão de Ética como  mecanismo de ameaça e subordinação do Conselho Tutelar.
Diferente do que está posto pelo censo comum, o Conselho Tutelar, não é um órgão técnico, mas político.  Ele é a presença da sociedade civil no sistema de garantias, que pela lógica da Doutrina da Proteção Integral recebe da sociedade (crianças, adolescentes, famílias, comunidades) notícias de violação dos direitos e a partir do colegiado delibera pelo melhor encaminhamento possível, responsabilizando e comprometendo aos que devem responder pelo ressarcimento do direito ameaçado (Saut, 2008). Na grande maioria das vezes é o Estado.
Neste sentido, quando o gestor público, nega-se a dar estrutura básica ao Conselho Tutelar, impede e rompe a possibilidade de comunicação entre a sociedade e seus representantes no sistema de garantia. Impedindo assim que o Estado seja responsabilizado por sua ação ou omissão. Assim, o Conselho Tutelar deixa de cumprir suas funções de fiscalização, controle e assessoramento do Estado e passa a ser apenas uma porta de entrada para a população na rede de atendimento. Desta forma, o Conselho Tutelar minimiza suas atribuições na relação com o Estado e se fortalece como uma espécie de Polícia das famílias. 
O resultado deste processo a função do Conselheiro Tutelar transformou-se em sinônimo de burocrata, esvaziado de sua função política e reduzido a ser um despachante de ofícios, que na atual conjuntura (sem computador) retorna ao início da década de 70. Uma caricatura do extinto Juizado de Menor.

domingo, 4 de novembro de 2012

E as enchentes?




Josué de Souza



No mês de setembro completou um ano desde a última catástrofe socioambiental em nossa região. Motivado pelo estrondoso silêncio na imprensa local, das autoridades e da população em geral, que parece que esqueceram o assunto, resolvi escrever sobre o tema.
O fenômeno socioambiental das catástrofes em nossa região é tratado pela imprensa e pela elite política local, como um evento natural, fruto da vontade divina ou das forças da natureza, que atinge a todos, independente de classe social. Porém, o fato é que especificamente a cidade de Blumenau convive com o fenômeno das catástrofes há pelo menos 159 anos, já que o primeiro registro data de novembro de 1852. Sua incidência se dá como consequência do processo de ocupação do solo na região do Vale do Itajaí que produziu a intensificação e o agravamento de suas consequências.
Isso se dá, pelo fato de que a instalação da cidade deu-se em torno do Rio Itajaí Açu e dos seus afluentes, sobretudo, na região sul da cidade onde os declives geográficos, facilitava a produção de energia elétrica que propulsionou a expansão da indústria têxtil na região.
Em busca dos empregos nas indústrias, os trabalhadores, portanto, os mais pobres, ocuparam as áreas de encostas de morros que aos poucos foram tornando-se espaços de pobrezas. Aliado a própria lógica capitalista de segregação espacial, a ocupação de áreas geográficas e a crescente utilização de recursos naturais, reduziram a cobertura vegetal na cidade, promovendo a aceleração do escoamento da água e sua consequente destruição.
As somas destas características produziu um quadro de vulnerabilidade socioambiental que deixa a população mais empobrecida exposta aos impactos destas catástrofes. Esta segregação fica clara se analisarmos os dados do Censo de 2010. Aponta que apesar da região viver um crescimento na área da construção civil e o número de pessoas residindo em apartamentos crescer 126,6%, o número de pessoas residindo em cortiços ou quitinetes, cresceu 92% entre 2000 e 2010. Ou seja, se cresceu neste período o número de moradores de apartamentos, cresce também o número de moradias precárias, dando provas que o território blumenauense é construído de forma desigual. Uma bomba socioambiental que irá explodir na próxima temporada de chuva em excesso.
A grande questão é que fora do período de chuvas o tema é esquecido pela população e pelas autoridades em geral. Vivemos como se o problema não existisse e passamos a encubar a próxima catástrofe. Não pretendo afirmar aqui, que o problema socioambiental não atinge os mais ricos, mas que em Blumenau, ele atinge de forma mais violenta, os mais pobres e os migrantes. Se Deus ou a natureza manda a chuva, nós escolhemos quem irá ser atingido ou não pelas cheias.

quarta-feira, 8 de agosto de 2012

Os números do censo religioso



Josué de Souza
O Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística – IBGE divulgou no mês de junho o Censo Religioso referente ao levantamento feito em todos os municípios brasileiros no Censo 2010.  A pesquisa confirmou a tendência já apontada em outras pesquisas de uma crescente dos evangélicos, cerca de 22,2% dos brasileiros. Para termos uma ideia do crescimento dos evangélicos, na década de 1940 éram 2,6% da população brasileira, em 1950 subiu para 3,4%, em 1960 5,2%, em 1970 6,6%, em 1980 9%, em 1991 e 2000, 15,4% da população brasileira. Hoje segundo a pesquisa, 42.275.440 milhões dos brasileiros se declararam evangélicos.  Destes, mais de 25 milhões são de origem pentecostal, cerca de 13,2% no qual a Igreja Evangélica Assembléia de Deus possui 60% do grupo, que conta com 12.314.410 milhões de fiéis, ou seja, 6,4% da população brasileira.  
Quanto à distribuição geográfica 71,7% dos moradores de áreas urbanas responderam ser católicos, enquanto 16,4 % são evangélicos. Já os que moram no campo, 83,1% são católicos enquanto 10,7% são evangélicos. Em Santa Catarina a população de evangélicos é de 1.252.495, ou seja, 20% dos catarinenses, e destes 685.769 mil são pentecostais, 10,9% nos quais 359.740 são assembleianos, um universo de 5,7% dos moradores do território catarinense.
Outro dado da pesquisa demonstra que os pentecostais avançam em segmentos mais vulneráveis da população. 64% estão residem nas periferias urbanas e são de famílias que ganham até um salário mínimo, 28% recebem entre um e três salários, 42% têm ensino fundamental incompleto, e como nas pesquisas anteriores os pentecostais são na sua maioria mulheres cerca de 55,5%.
O que chama a atenção é o aumento do número dos brasileiros que se declaram sem religião. Segundo o censo, de 7,28% em 2000 para 8% em 2010, cerca de 15 milhões de pessoas, um acréscimo não só maior de que o operado no meio dos evangélicos. Para estes a religião está deixando de ser significativa, sobretudo na população mais de jovens entre 15 e 19 anos.

Texto publicado originalmente no Jornal da IEADB http://www.ieadblu.com/materias/os-numeros-do-censo-religioso
 

domingo, 22 de julho de 2012

Levo você em mim

Josué de Souza
Foto: Nilson Rosa
Houve um tempo que considerava você invencível. Era forte, parecia que não se cansava nunca. Lembro que quando chegava ao final do dia eu ficava sentado naquele lindo gramado ao lado da nossa casa esperando quando você aparecia na curva. Saía em disparada ao seu encontro para aquela encantadora carona no bagageiro da sua bicicleta. Até hoje, trago na memória o cheiro forte da madeira que trazias contigo. Ele denunciava tua condição de operário marceneiro que para trazer o sustento para os teus, vendia até doze horas de trabalho diário.
            Mais tarde quando eu estava entrando na juventude percebi que você não era invencível. Também cansava e muitas vezes ficastes tristes. Foi neste tempo que adoecestes. Para mim aquilo era mais inconcebível, logo você que sempre foi meu exemplo de força e vitalidade.  Alimentava-se bem, sempre ficou longe dos vícios, e agora doente. Parecia que os anos de trabalho duro, cobrava agora a conta. Neste tempo eu procurava na Bíblia um exemplo de homem. Sim, procurava um personagem forte, sem erros ou contradições como esses manuais e palestras fajutas de autoajuda ensinam. Percebi que não existe, todos erraram, adoeceram e falharam.
            Interessante foi que assim ficamos mais próximos, passamos a conversar mais e você não sabe o quanto eu apreendi. Lembro-me das manhãs que você passava lendo a bíblia sentado na porta da sala. Das vezes que você pedia que eu fizesse a tua barba. Guardo seus conselhos sobre os cuidados e os respeito com os mais velhos, a importância dos estudos, sobretudo porque o seu personagem bíblico favorito, o Paulo, era estudado.  
            Quando casei e saí de casa e fiquei um pouco longe de você, foi que percebi o quanto eu levo você em mim. Nas mínimas coisas, na organização das finanças, na arrumação das ferramentas, o gosto pela jardinagem, à forma de fazer ou de detestar fazer a barba, e o zelo com a família. Logo após de casado, adoeci, foi então que percebi o quanto és importante e presente em minha vida. Agora, não ficava mais sentado na grama esperando por você, mas na varanda esperando você descer do ônibus para me visitar. Foi então que percebi que o que havia de similar entre eu, você e os personagens bíblicos. Somos humanos, encantadoramente humanos, e entre os meus heróis humanos, você é o preferido!


segunda-feira, 11 de junho de 2012

A Ilha do Paraíso


Josué de Souza

A Ilha do Paraíso é na verdade um arquipélago banhado por cinco oceanos. Criada por um poeta, na sua fundação, a ilha possuía uma beleza incomparável, era o que hoje chamamos de paraíso ecológico. Os cuidados da ilha, o artista delegou aos homens. Tudo na ilha funcionava em harmonia, como em uma grande orquestra.  Todos os dias o poeta visitava sua criação, gostava de apreciar a sua beleza e conversar com seus moradores. Deles não cobrava nada, apenas que desfrutassem da beleza de sua criação, que preservassem e que tratassem um ao outro como a si mesmo.
Porem, certo dia, os moradores se deixaram levar pela ganância, queriam tornar-se igual ao criador e fazer tornar a Ilha do Paraíso sua propriedade. Achavam que podiam sozinhos interferir na criação do poeta. Entristecido, o poeta se afastou. Sozinhos, os moradores começaram a tratar a ilha de forma utilitária. Diminuíram as matas, desviaram os rios, mataram peixes e animais. Enganados pela mesma ambição que os afastou do criador, construíram cercas a fim de dividir a ilha em propriedades.
Mais tarde, o poeta enviou seu filho à ilha. Um marceneiro, que em suas mensagens falava em dividir o pão, amar o próximo e ser humilde como uma criança. Apaixonado pela ilha, como o pai, vivia sempre próximo à natureza. Fez até amizade com um grupo de pescadores. Seu objetivo era mostrar que seu pai desejava reatar a sua relação com os homens, e isto significava também modificar a relação deles com a natureza. Porem os moradores não compreenderam, colocaram-no em uma cruz.
Hoje a ilha está cansada, e nem de longe lembra aquele paraíso dos tempos da criação. Seus recursos estão esgotados. As montanhas estão desmoronando, os rios transbordando e as florestas tornando-se desertos. A Ilha ameaça agora entrar em colapso e assim coloca em risco a existência de todos os homens. Estes, cegos pela ganância, continuam explorando um ao outro e destruindo o que resta da criação do poeta.
O Criador e seu filho aguardam pacientemente que os moradores da ilha, compreendam sua mensagem, se arrependam de seus pecados, não somente os morais, mas também os pecados sociais.  Que amem uns aos outros como a si mesmo (Rm 13: 8). Que não de ao lucro e a propriedade um status divino (Tm 6:10). Que cuidem e valorizem a Ilha do Paraíso como uma obra de arte do criador, que é única, que ele colocou em nossas mãos para guardá-la (Gn 2:15).


Texto publicado originalmente no Jornal da IEAD Blumenau http://www.ieadblu.com/materias/a-ilha-do-paraiso

segunda-feira, 4 de junho de 2012

Tarde de autografo com Urda Alice Klueguer


A Livraria BluLivro e a Editora Hemisfério Sul estarão realizando uma tarde de autografo com a escritora Urda Alice Klueger possui um livro que reúne uma coletânea de crônicas de amor que chama  Trinados para o meu Passarinho. O evento será no dia dos namorados, dia 12 de Junho Blulivro na rua XV de Novembro, 819 – Centro de Blumenau.



segunda-feira, 7 de maio de 2012

O Exodo


Josué de Souza

A fome como sempre era implacável, corroia o que restava de suas forças. As pernas cansadas arrastavam os pés doloridos produzindo passos trôpegos. Era março e o sol escaldante tornava os longos dias de caminhada uma saga insuportável. Os ombros pesavam cada vez mais provocando uma expressão corporal curva, somando ao rosto embrutecido pela dureza do trecho e pelas desilusões da jornada.
Já fazia duas semanas desde que saíra de sua terra no oeste. Saiu empurrado pela miséria e pela violência, saiu para não morrer. Deixou para traz, os pais e irmãos, mas antes fez-lhes uma promessa.  Os buscaria assim que encontrasse um emprego na cidade grande.
 A plantação de soja e a criação de gado em grande escala trouxeram progresso e crescimento econômico, mas não era para todos. Com eles veio junto à invasão das terras comunitárias, as cercas e a violência dos grandes proprietários contra os agricultores familiares e os moradores tradicionais. Fez também ressurgir escravidão de adultos e crianças.
Trôpego, aproximou-se de uma banca de frutas nas margens da rodovia. O cheiro da fruta fresca, aliado com a fome, fez com que o corpo respondesse de forma pronta. Lançou à mão de uma fruta.
O sabor doce da fruta transferiu-lhe para as lembranças de infância. A terra gorda, fofa e vermelha. A lembrança da vida simples em comunidade, onde a propriedade não era o principal valor e sim a convivência, a comunhão e a partilha das alegrias da vida, onde do trabalho na terra junto com a família e amigos, tirava alimento necessário para sobreviver.
Ainda mergulhado nas lembranças da terra natal, foi abruptamente trazido para a dura realidade pelo proprietário da banca.
- Vai pagar ou quer que eu chame a polícia?
Nervoso, enfiou a mão no bolso da calça suja, da cor do asfalto, e lhe entregou às ultimas moedas.
- Não tem precisão senhor, não sou bandido, sou apenas um faminto.
Confuso, seguiu sua jornada, não sabia ele que na cidade grande, o alimento chama-se mercadoria. 

quarta-feira, 11 de abril de 2012

O que deve ser dito



Günter Grass*



Porque guardo silêncio há demasiado tempo
sobre o que é manifesto
e se utilizava em jogos de guerra
em que no fim, nós sobreviventes,
acabamos como meras notas de rodapé.

É o suposto direito a um ataque preventivo,
que poderá exterminar o povo iraniano,
conduzido ao júbilo
e organizado por um fanfarrão,
porque na sua jurisdição se suspeita
do fabrico de uma bomba atômica.

Mas por que me proibiram de falar
sobre esse outro país [Israel], onde há anos
- ainda que mantido em segredo –
se dispõe de um crescente potencial nuclear,
que não está sujeito a nenhum controle,
pois é inacessível a inspeções?

O silêncio geral sobre esse fato,
a que se sujeitou o meu próprio silêncio,
sinto-o como uma gravosa mentira
e coação que ameaça castigar
quando não é respeitada:
“antissemitismo” se chama a condenação.

Agora, contudo, porque o meu país,
acusado uma e outra vez, rotineiramente,
de crimes muito próprios,
sem quaisquer precedentes,
vai entregar a Israel outro submarino
cuja especialidade é dirigir ogivas aniquiladoras
para onde não ficou provada
a existência de uma única bomba,
se bem que se queira instituir o medo como prova… digo o que deve ser dito.

Por que me calei até agora?

Porque acreditava que a minha origem,
marcada por um estigma inapagável,
me impedia de atribuir esse fato, como evidente,
ao país de Israel, ao qual estou unido
e quero continuar a estar.

Por que motivo só agora digo,
já velho e com a minha última tinta,
que Israel, potência nuclear, coloca em perigo
uma paz mundial já de si frágil?

Porque deve ser dito
aquilo que amanhã poderá ser demasiado tarde [a dizer],
e porque – já suficientemente incriminados como alemães –
poderíamos ser cúmplices de um crime
que é previsível,
pelo que a nossa cota-parte de culpa
não poderia extinguir-se
com nenhuma das desculpas habituais.

Admito-o: não vou continuar a calar-me
porque estou farto
da hipocrisia do Ocidente;
é de esperar, além disso,
que muitos se libertem do silêncio,
exijam ao causador desse perigo visível
que renuncie ao uso da força
e insistam também para que os governos
de ambos os países permitam
o controle permanente e sem entraves,
por parte de uma instância internacional,
do potencial nuclear israelense
e das instalações nucleares iranianas.

Só assim poderemos ajudar todos,
israelenses e palestinos,
mas também todos os seres humanos
que nessa região ocupada pela demência
vivem em conflito lado a lado,
odiando-se mutuamente,
e decididamente ajudar-nos também.


* O escritor alemão Günter Grass, prêmio Nobel de Literatura de 1999, poema retirado de: http://www.brasildefato.com.br/content/o-poema-que-desmascarou-israel

sábado, 7 de abril de 2012

Os Indiferentes



Por Antonio Gramsci
Odeio os indiferentes. Como Friederich Hebbel acredito que "viver significa tomar partido". Não podem existir os apenas homens, estranhos à cidade. Quem verdadeiramente vive não pode deixar de ser cidadão, e partidário. Indiferença é abulia, parasitismo, covardia, não é vida. Por isso odeio os indiferentes.
A indiferença é o peso morto da história. É a bala de chumbo para o inovador, é a matéria inerte em que se afogam freqüentemente os entusiasmos mais esplendorosos, é o fosso que circunda a velha cidade e a defende melhor do que as mais sólidas muralhas, melhor do que o peito dos seus guerreiros, porque engole nos seus sorvedouros de lama os assaltantes, os dizima e desencoraja e às vezes, os leva a desistir de gesta heróica.
A indiferença atua poderosamente na história. Atua passivamente, mas atua. É a fatalidade; e aquilo com que não se pode contar; é aquilo que confunde os programas, que destrói os planos mesmo os mais bem construídos; é a matéria bruta que se revolta contra a inteligência e a sufoca. O que acontece, o mal que se abate sobre todos, o possível bem que um ato heróico (de valor universal) pode gerar, não se fica a dever tanto à iniciativa dos poucos que atuam quanto à indiferença, ao absentismo dos outros que são muitos. O que acontece, não acontece tanto porque alguns querem que aconteça quanto porque a massa dos homens abdica da sua vontade, deixa fazer, deixa enrolar os nós que, depois, só a espada pode desfazer, deixa promulgar leis que depois só a revolta fará anular, deixa subir ao poder homens que, depois, só uma sublevação poderá derrubar. A fatalidade, que parece dominar a história, não é mais do que a aparência ilusória desta indiferença, deste absentismo. Há fatos que amadurecem na sombra, porque poucas mãos, sem qualquer controle a vigiá-las, tecem a teia da vida coletiva, e a massa não sabe, porque não se preocupa com isso. Os destinos de uma época são manipulados de acordo com visões limitadas e com fins imediatos, de acordo com ambições e paixões pessoais de pequenos grupos ativos, e a massa dos homens não se preocupa com isso. 
Mas os fatos que amadureceram vêm à superfície; o tecido feito na sombra chega ao seu fim, e então parece ser a fatalidade a arrastar tudo e todos, parece que a história não é mais do que um gigantesco fenômeno natural, uma erupção, um terremoto, de que são todos vítimas, o que quis e o que não quis, quem sabia e quem não sabia, quem se mostrou ativo e quem foi indiferente. Estes então zangam-se, queriam eximir-se às conseqüências, quereriam que se visse que não deram o seu aval, que não são responsáveis. Alguns choramingam piedosamente, outros blasfemam obscenamente, mas nenhum ou poucos põem esta questão: se eu tivesse também cumprido o meu dever, se tivesse procurado fazer valer a minha vontade, o meu parecer, teria sucedido o que sucedeu? Mas nenhum ou poucos atribuem à sua indiferença, ao seu cepticismo, ao fato de não ter dado o seu braço e a sua atividade àqueles grupos de cidadãos que, precisamente para evitarem esse mal combatiam (com o propósito) de procurar o tal bem (que) pretendiam.
A maior parte deles, porém, perante fatos consumados prefere falar de insucessos ideais, de programas definitivamente desmoronados e de outras brincadeiras semelhantes. Recomeçam assim a falta de qualquer responsabilidade. E não por não verem claramente as coisas, e, por vezes, não serem capazes de perspectivar excelentes soluções para os problemas mais urgentes, ou para aqueles que, embora requerendo uma ampla preparação e tempo, são todavia igualmente urgentes. Mas essas soluções são belissimamente infecundas; mas esse contributo para a vida coletiva não é animado por qualquer luz moral; é produto da curiosidade intelectual, não do pungente sentido de uma responsabilidade histórica que quer que todos sejam ativos na vida, que não admite agnosticismos e indiferenças de nenhum gênero.
Odeio os indiferentes também, porque me provocam tédio as suas lamúrias de eternos inocentes. Peço contas a todos eles pela maneira como cumpriram a tarefa que a vida lhes impôs e impõe quotidianamente, do que fizeram e sobretudo do que não fizeram. E sinto que posso ser inexorável, que não devo desperdiçar a minha compaixão, que não posso repartir com eles as minhas lágrimas. Sou militante, estou vivo, sinto nas consciências viris dos que estão comigo pulsar a atividade da cidade futura que estamos a construir. Nessa cidade, a cadeia social não pesará sobre um número reduzido, qualquer coisa que aconteça nela não será devido ao acaso, à fatalidade, mas sim à inteligência dos cidadãos. Ninguém estará à janela a olhar enquanto um pequeno grupo se sacrifica, se imola no sacrifício. E não haverá quem esteja à janela emboscado, e que pretenda usufruir do pouco bem que a atividade de um pequeno grupo tenta realizar e afogue a sua desilusão vituperando o sacrificado, porque não conseguiu o seu intento.
Vivo, sou militante. Por isso odeio quem não toma partido, odeio os indiferentes.
            

quarta-feira, 28 de março de 2012

David Harvey e a crise financeira


O Geografo marxista britanico David Harvey, é professor da City University of New York e autor entre outras obras dos livros: "Espaços de Esperança", "A produção capitalista do espaço" e "O enigma do capital". Com a atual crise mundial, sua obra tem tornado-se essencial para compreender a dinâmica do capitalismo atual. Abaixo uma entrevista com o autor:


sábado, 24 de março de 2012

Um mundo em crise - Uma teologia em crise





Josué de Souza


Nos últimos anos o mundo assiste estupefato resposta a crise econômica-finaceira americana, que atingiu a Europa, implodindo estruturas e crenças econômicas que até então pareciam sólidas e inquestionáveis. Crise talvez comparada apenas à crise de vinte e nove. Reduzindo aos analistas econômicos o papel de noticiar qual será o próximo país a entrar em crise.

O que por si só já seria perturbador é acompanhado por uma crise ambiental e pelas conseqüências do efeito, nos aconselham botar o pé no freio no crescimento econômico e consumo indiscriminado.

O cenário acima denuncia a qualquer observador social atento que estamos em uma encruzilhada histórica. Encruzilhada talvez análoga ao iluminismo e das grandes revoluções do século XIX. E que sem dúvida desembocará em transformações em todas as áreas do conhecimento e da vida social.

Não seria inovador afirmar aqui que ao longo da história humana, o discurso religioso acompanhou as transformações sociais. Dito de outra forma, nossa forma de organização e produção material e econômica é influenciada e influencia nossa forma de nos relacionarmos com o sagrado. No cristianismo brasileiro isto transparece quando uma parte dos fieis utilizam a fé como força mobilizadora na obtenção de bens materiais. Acreditando que Deus está para servi-lo e que é possível um paraíso terrestre.

O grande problema (ou oportunidade) é que permanecendo o atual cenário de crise econômico-ambiental, o discurso teológico de bênçãos financeiras intermináveis e consumo inconseqüente é obsoleto. Não se sustenta. Impondo-se a necessidade de se produzir um novo discurso teológico.

No meu entendimento esta mensagem deve considerar que cada ação prejudicial ao meio ambiente é teologicamente duvidosa.  Que não considere virtuosos a tentativa utilitarista de relação com o próximo e com o sagrado. Que radicalize a democracia em todas as esferas da vida, incluindo a familiar e religiosa. Que valorize os prazeres oriundos da relação com Deus, das relações humanas e da relação com a natureza. E que retire da centralidade da vida humana as relações econômicas. Mensagem esta que parece estar mais próximo a mensagem de certo Nazareno.

sexta-feira, 9 de março de 2012

Bunker Roy - Universidade dos Pés-Descalços

Em Rajasthan, na Índia, uma escola ensina mulheres e homens do meio rural, muitos deles analfabetos- a tornarem-se engenheiros solares, artesãos, dentistas e médicos nas suas próprias aldeias. Chama-se Universidade dos Pés-Descalços, e o seu fundador, Bunker Roy, explica como funciona.