sábado, 18 de fevereiro de 2012

Precisamos retornar para a praça




Josué de Souza

Um dia destes, fiquei observando a saída do estacionamento depois do culto. Parecia um filme daqueles de fim do mundo, todos com pressa, alguns um pouco mais exaltados, esquecendo talvez que no volante do outro carro tem um irmão. Além desta característica acima, creio que, nos últimos anos sofremos outra mudança de comportamento. Chamo de síndrome da troca praça pelo estacionamento.
Nem sempre fomos assim, houve um tempo em que não saíamos correndo para embarcarmos nos nossos carros.  A maioria vinha de ônibus para a igreja, e os outros pareciam menos apressados. O transito da Rua São Paulo era nos dois sentidos e havia um ponto de ônibus de cada lado o que facilitava a convivência na praça.  Do lado em frente à igreja, havia um pipoqueiro, que fazia a festa das crianças e dos casais de namorados.  O fato de vir de ônibus ajudava, pois tínhamos tempo de conversar e conviver antes e depois do culto. Alguns conversavam o culto todo, para desespero do porteiro, irmão Alcindo.
Com o tempo trocamos a praça pelo estacionamento, e por fim, o estacionamento pelo interior dos nossos carros. Perdemos um pouco nossos espaços de sociabilidade, que também é uma função da igreja.  A convivência da praça foi privatizada para o interior do carro e reduzida somente aos familiares e amigos mais chegados. Um perigo, pois assim nos relacionamos  somente no interior do templo, apenas de forma normativa e institucional e muito pouco orgânica.
Não estou pretendendo fazer critica a ninguém, nem querendo ser saudosista. Apenas creio que precisamos resgatar nossas conversas de praças, nossos tempos de comunhão, de convivência, e com eles regatar nossas relações como grupo social. Criar espaços que produzam amizades duradouras e relações sadias. Que sejam regadas a coisas simples como pipocas e  conversas despretensiosas.
 Lembro que, certa vez, em um domingo desses da praça, um amigo depois de muito tempo, teve coragem de ir conversar com uma jovem. Ele ofereceu a ela um pacote de pipoca e cada vez que o pacote começava a  chegar ao final, para ela não ir embora, ele comprava outro. Resumindo, ele gastou uma nota, ficou o culto todo na rua, sem conversar com a moça, pagando e comendo pipoca, com medo que a moça fosse embora.  

* Texto publicado originalmente no Jornal da Assembleia de Deus

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

O avanço nas duas décadas do ECA



Josué de Souza*

O Estatuto da Criança e do Adolescente – ECA, Lei nº 8.069/90 é uma legislação ainda jovem, possui 21 anos. O ECA, como é mais conhecido, chegou ao Brasil na esteira de um movimento mundial de normas e mudanças nos paradigmas em relação à infância e à juventude, bem como em meio a mudanças no cenário político nacional, a redemocratização.
Um dos pontos importantes desta legislação é o fato de que crianças e adolescentes deverão estar sempre em primeiro lugar na escala das preocupações da família, da comunidade, do Poder Público e da sociedade em geral, sem qualquer tipo de diferença de tratamento.
Neste sentido rompe definitivamente com as leis da Doutrina de Situação Irregular que até então vigoravam no Brasil. Fez-se nascer no Brasil a concepção de que a criança e o adolescente são sujeitos de direitos, como cidadãos passíveis de proteção integral. Sendo assim, o ECA definitivamente não é uma legislação de direito e deveres de crianças como querem alguns.
Um estudo apresentado pela Câmara dos Deputados aponta para uma melhora expressiva na vida de quase 60 milhões de brasileiros com menos de 18 anos, nas duas últimas décadas. Em seus 267 artigos, o ECA é uma legislação que impôs ao Estado e à sociedade uma série de obrigações e deveres que resultaram em uma grande rede de proteção social para crianças e adolescentes.
Apesar das dificuldades que enfrentamos no dia a dia e a sempre presente ameaça de retrocessos, houve avanços nos últimos vinte anos. Os números falam por si: a mortalidade infantil caiu mais de 60%. O; o analfabetismo entre as crianças de 10 a 14 anos, que era de 14% em 1990, foi reduzido a 2,8% (dados do IBGE de 2008). Já o trabalho infantil, outra chaga brasileira, teve queda de 50% em quase 20 anos. No entanto, ainda seguem altos os índices de gravidez na adolescência,; e a violência contra crianças e adolescentes continua sendo um problema de difícil solução.
Para tanto, é preciso continuar lutando para que a legislação seja implementada na sua totalidade em todas as esferas do poder. É preciso atenção redobrada para defender a lei que vive ameaçada por alguns que não entendem que uma sociedade que permite a violência contra crianças e adolescentes é uma sociedade que padece de uma doença grave. Como pregava o saudoso Pr. Woldemar Kinas: “Quem não investe nas crianças, hipoteca o futuro”.

 * Texto publicado originalmente no Jornal da AD em 01/10/2010