segunda-feira, 7 de maio de 2012

O Exodo


Josué de Souza

A fome como sempre era implacável, corroia o que restava de suas forças. As pernas cansadas arrastavam os pés doloridos produzindo passos trôpegos. Era março e o sol escaldante tornava os longos dias de caminhada uma saga insuportável. Os ombros pesavam cada vez mais provocando uma expressão corporal curva, somando ao rosto embrutecido pela dureza do trecho e pelas desilusões da jornada.
Já fazia duas semanas desde que saíra de sua terra no oeste. Saiu empurrado pela miséria e pela violência, saiu para não morrer. Deixou para traz, os pais e irmãos, mas antes fez-lhes uma promessa.  Os buscaria assim que encontrasse um emprego na cidade grande.
 A plantação de soja e a criação de gado em grande escala trouxeram progresso e crescimento econômico, mas não era para todos. Com eles veio junto à invasão das terras comunitárias, as cercas e a violência dos grandes proprietários contra os agricultores familiares e os moradores tradicionais. Fez também ressurgir escravidão de adultos e crianças.
Trôpego, aproximou-se de uma banca de frutas nas margens da rodovia. O cheiro da fruta fresca, aliado com a fome, fez com que o corpo respondesse de forma pronta. Lançou à mão de uma fruta.
O sabor doce da fruta transferiu-lhe para as lembranças de infância. A terra gorda, fofa e vermelha. A lembrança da vida simples em comunidade, onde a propriedade não era o principal valor e sim a convivência, a comunhão e a partilha das alegrias da vida, onde do trabalho na terra junto com a família e amigos, tirava alimento necessário para sobreviver.
Ainda mergulhado nas lembranças da terra natal, foi abruptamente trazido para a dura realidade pelo proprietário da banca.
- Vai pagar ou quer que eu chame a polícia?
Nervoso, enfiou a mão no bolso da calça suja, da cor do asfalto, e lhe entregou às ultimas moedas.
- Não tem precisão senhor, não sou bandido, sou apenas um faminto.
Confuso, seguiu sua jornada, não sabia ele que na cidade grande, o alimento chama-se mercadoria. 

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