domingo, 22 de julho de 2012

Levo você em mim

Josué de Souza
Foto: Nilson Rosa
Houve um tempo que considerava você invencível. Era forte, parecia que não se cansava nunca. Lembro que quando chegava ao final do dia eu ficava sentado naquele lindo gramado ao lado da nossa casa esperando quando você aparecia na curva. Saía em disparada ao seu encontro para aquela encantadora carona no bagageiro da sua bicicleta. Até hoje, trago na memória o cheiro forte da madeira que trazias contigo. Ele denunciava tua condição de operário marceneiro que para trazer o sustento para os teus, vendia até doze horas de trabalho diário.
            Mais tarde quando eu estava entrando na juventude percebi que você não era invencível. Também cansava e muitas vezes ficastes tristes. Foi neste tempo que adoecestes. Para mim aquilo era mais inconcebível, logo você que sempre foi meu exemplo de força e vitalidade.  Alimentava-se bem, sempre ficou longe dos vícios, e agora doente. Parecia que os anos de trabalho duro, cobrava agora a conta. Neste tempo eu procurava na Bíblia um exemplo de homem. Sim, procurava um personagem forte, sem erros ou contradições como esses manuais e palestras fajutas de autoajuda ensinam. Percebi que não existe, todos erraram, adoeceram e falharam.
            Interessante foi que assim ficamos mais próximos, passamos a conversar mais e você não sabe o quanto eu apreendi. Lembro-me das manhãs que você passava lendo a bíblia sentado na porta da sala. Das vezes que você pedia que eu fizesse a tua barba. Guardo seus conselhos sobre os cuidados e os respeito com os mais velhos, a importância dos estudos, sobretudo porque o seu personagem bíblico favorito, o Paulo, era estudado.  
            Quando casei e saí de casa e fiquei um pouco longe de você, foi que percebi o quanto eu levo você em mim. Nas mínimas coisas, na organização das finanças, na arrumação das ferramentas, o gosto pela jardinagem, à forma de fazer ou de detestar fazer a barba, e o zelo com a família. Logo após de casado, adoeci, foi então que percebi o quanto és importante e presente em minha vida. Agora, não ficava mais sentado na grama esperando por você, mas na varanda esperando você descer do ônibus para me visitar. Foi então que percebi que o que havia de similar entre eu, você e os personagens bíblicos. Somos humanos, encantadoramente humanos, e entre os meus heróis humanos, você é o preferido!


5 comentários:

  1. Josué
    Seu texto me levou as lagrimas pois lembro com muitas saudades de meu queripai Nicolao Day, um exemplo de pessoa, honestidade, dignidade, bondoso, preocupados com a vida da sociedade.
    Andava com ele em um banquinho de sua bicicleta, ajudava no jardim, cortar e serrar lenhas...Sem vícios.
    Também guardo seus conselhos, e depois que se foi que a gente vai mesmo lembrar-se dos conselhos, que nos ajudou a construir uma vida melhor. Bombeiro voluntário, que me enche de orgulho. Como é bom poder falar de alguém que a gente tanto ama, e isso você descreveu muito bem.
    Parabéns.
    Adalberto Day cientista social e pesquisador da história

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    1. Obrigado Adalberto, obrigado pela suas palavras

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  2. Não quero ser redundante ao falar de um texto como este, mas segurei as lágrimas. Acredito que alguns momentos não voltam, e não precisam, pois já cumpriram com a sua lida. Entretanto, sempre vale a pena revivê-los na lembrança.
    A nostalgia do texto contagiaria até os mais duros corações; aos pequenos e flácidos, como o meu, reacendem o sentimento do medo da perca.

    Parabéns pelo texto.

    Grande abraço.

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    1. Obrigado Vilto, suas considerações deixa feliz

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  3. Fico feliz que uma bela cabeça como a tua abra espaço para um coração generoso. Casos assim não são tão comuns, razão pela qual te distingues como intelectual, amigo, filho, parceiro, enfim, um ser encantadoramente humano.

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