domingo, 4 de novembro de 2012

E as enchentes?




Josué de Souza



No mês de setembro completou um ano desde a última catástrofe socioambiental em nossa região. Motivado pelo estrondoso silêncio na imprensa local, das autoridades e da população em geral, que parece que esqueceram o assunto, resolvi escrever sobre o tema.
O fenômeno socioambiental das catástrofes em nossa região é tratado pela imprensa e pela elite política local, como um evento natural, fruto da vontade divina ou das forças da natureza, que atinge a todos, independente de classe social. Porém, o fato é que especificamente a cidade de Blumenau convive com o fenômeno das catástrofes há pelo menos 159 anos, já que o primeiro registro data de novembro de 1852. Sua incidência se dá como consequência do processo de ocupação do solo na região do Vale do Itajaí que produziu a intensificação e o agravamento de suas consequências.
Isso se dá, pelo fato de que a instalação da cidade deu-se em torno do Rio Itajaí Açu e dos seus afluentes, sobretudo, na região sul da cidade onde os declives geográficos, facilitava a produção de energia elétrica que propulsionou a expansão da indústria têxtil na região.
Em busca dos empregos nas indústrias, os trabalhadores, portanto, os mais pobres, ocuparam as áreas de encostas de morros que aos poucos foram tornando-se espaços de pobrezas. Aliado a própria lógica capitalista de segregação espacial, a ocupação de áreas geográficas e a crescente utilização de recursos naturais, reduziram a cobertura vegetal na cidade, promovendo a aceleração do escoamento da água e sua consequente destruição.
As somas destas características produziu um quadro de vulnerabilidade socioambiental que deixa a população mais empobrecida exposta aos impactos destas catástrofes. Esta segregação fica clara se analisarmos os dados do Censo de 2010. Aponta que apesar da região viver um crescimento na área da construção civil e o número de pessoas residindo em apartamentos crescer 126,6%, o número de pessoas residindo em cortiços ou quitinetes, cresceu 92% entre 2000 e 2010. Ou seja, se cresceu neste período o número de moradores de apartamentos, cresce também o número de moradias precárias, dando provas que o território blumenauense é construído de forma desigual. Uma bomba socioambiental que irá explodir na próxima temporada de chuva em excesso.
A grande questão é que fora do período de chuvas o tema é esquecido pela população e pelas autoridades em geral. Vivemos como se o problema não existisse e passamos a encubar a próxima catástrofe. Não pretendo afirmar aqui, que o problema socioambiental não atinge os mais ricos, mas que em Blumenau, ele atinge de forma mais violenta, os mais pobres e os migrantes. Se Deus ou a natureza manda a chuva, nós escolhemos quem irá ser atingido ou não pelas cheias.

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