terça-feira, 22 de janeiro de 2013

A espera do jantar


Josué de Souza

Mais uma vez reuniram-se na mesma sala para o espetáculo. Cantaram, fizeram orações, mecanicamente citaram versos. Meticulosamente seguiram a tradição. Apesar das duas mortes, assombrosamente, tudo continuava conforme a tradição. Reuniram-se todos como se nada tivesse acontecido. Ninguém sentia falta deles, estavam todos entretidos com o rito da reunião.
No inicio as reunião acontecia com o objetivo de preparar-se para o grande jantar. Para o esperado evento estocavam comida e confabulavam sobre as receitas e o cardápio. Escreviam livros e teses sobre o assunto. Depois começaram a debater a disposição dos lugares na mesa. Os lugares mais próximos ao noivo eram os mais desejados. Criou-se até um pequeno comercio em torno desses lugares. Algo que lembrava uma bolsa de valores. Quem dava o maior lance, levava. Aos poucos, sem que ninguém percebesse, reunião cresceu, virou espetáculo.

  As Mortes

O primeiro cadáver foi vitimado pela fome. Na espera da grande refeição, foi definhando. No início, faminto pedia alimento. Tentava chamar atenção, buscava sensibilizar os outros. Contava sua história, apelava para religiosidade do grupo. Depois, cansado com a indiferença dos outros ou já sem forças, apenas levantava a mão enquanto lamuriava pedindo comida.  
O segundo também morreu por conta da fome, mas não a sua. Incomodado pela lamúria do faminto decidiu sair da inércia. Abriu o celeiro e concedeu um pedaço de pão ao faminto. Pego em flagrante, foi preso, não antes de assistir o moribundo dar o último suspiro. Julgado, foi condenado a ter o mesmo destino.

O Julgamento

Foram julgados rapidamente, no afogadilho. Na justificativa, além da expressão de contemplação dos seus algozes, havia uma explicação para a pressa no veredito.
- Não temos que nos preocupar com outras coisas que não seja trabalhar, e guardar as economias para o grande evento. Além de cotidianamente e nos dedicarmos a realização dos espetáculos. Até porque, na grande banquete todos os problemas serão resolvidos.
Ao lerem a sentença, os defensores da estocagem fizeram questão de adjetivar os finados:
            Para o primeiro:
            - Indolente! Preguiçoso!
O segundo:
- Herege! Má Influencia! Perigoso!